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sábado, 18 de abril de 2020

FUTEBOL E COVID-19

Imagem: Correio 24 Horas
Hoje completamos exato 1 mês sem futebol no Brasil por conta da pandemia do Covid-19. O Corona Vírus que assola o mundo adiou UEFA Euro, Olimpíadas e Copa América para 2021, e não deve parar só por aí. Torneio nacionais e internacionais estão paralisados por todo planeta e sem a menor ideia de quando irão voltar. Vou falar de alguns tópicos que são realidade agora e outros que devem ser em breve.
TEMPORADA EUROPEIA No dia 2 de abril, a Liga Belga foi cancelada e o Club Brugge declarado campeão com o consenso de todos os clubes da liga. A UEFA inclusive ameaçou suspender de suas competições pela decisão, porém ainda não oficializou (e provavelmente sequer irá).
Já a Bundesliga ensaiava o retorno no fim de maio/início de junho dos jogos restantes, mas sem torcida. A ideia foi rechaçada pelo governo, inclusive suspendendo qualquer atividade esportiva até o dia 31 de agosto, e tendo alas considerando só retornar em 2021, algo que deve ser seguido por praticamente todo o continente se houver bom senso.
TEMPORADA NO BRASIL No Brasil, os clubes estão férias até o fim desse mês e se fala em retornar no próximo mês as competições, considerando portões fechados. O próprio presidente do país, Jair Bolsonaro, se portou a favor e disse para ouvirem os sindicatos de jogadores. O SAFECE, sindicato no Ceará, confirmou que concorda com a preocupação de Bolsonaro, mas pediu cautela e que irá esperar informações dos órgãos de saúde, mas que se a situação permanecer, um protocolo de segurança poderia ser criado.

Especialistas acham irreal pensar em futebol no Brasil antes de Agosto ou Setembro. O crescente número de casos, a imensa sub-notificação e o fato da doença ter números altos sem ter chegado ao pico, só deixam mais distante termos um retorno em breve. Mesmo retornando de forma tardia, a possibilidade de não termos jogos com público em 2020 é bem real e bastante discutida.
SAÚDE DOS JOGADORES E FUNCIONÁRIOS Uma ação de jogo envolve ao menos 200 pessoas entre atletas, comissão, funcionários dos clubes, funcionários do estádio, agentes de segurança, arbitragem e federação. Mesmo que a maioria dos jogadores não estejam no grupo de risco (sim, existem atletas diabéticos e até mesmo hipertensos), técnicos, membros de comissão e de outras áreas estariam a se colocar em risco.

Aos 26 anos, o argentino Paulo Dybala, foi testado positivo e falou das dores musculares e da falta de ar, não aguentava 5 minutos de treino sem sentir extrema fadiga. Mesmo em alto rendimento e com preparo físico, poderíamos ter um pico de infecções entre jogadores, alguns podendo inclusive ter danos permanentes no pulmão e em outros órgãos, já que é um dos efeitos do vírus.
FINANCEIRO Talvez a questão mais debatida até aqui. No início da pandemia, o técnico italiano Carlo Ancelotti comentou que ao fim da doença teríamos um futebol mais parecido com sua origem. De fato, com apenas 1 mês sem atividade, os clubes começam a sentir o aperto financeiro. Na Escócia, os clubes da Premiership (Primeira Divisão) estão desesperados e alguns até falam em falência caso a quarentena permaneça.

De acordo com o site Transfermarkt, todos os 100 clubes mais valiosos do planeta perderam substancial valor de mercado. A Premier League perdeu mais de 2 bilhões de euros em valor. A crise não afeta apenas na Europa, no Brasil o caminho é o mesmo. Patrocinadores e fornecedores de material não pagaram parcelas, clubes perderam acordos, não só pequenos, o Flamengo perdeu o Azeite Royal (que também rompeu com Botafogo, Fluminense e Vasco) e tem parcelas da Adidas à receber, sem nenhuma expectativa de normalização.

Além disso, as cotas de transmissão estão paradas e não serão pagas em caso de não terem partidas jogadas. Com o calendário ficando cada vez mais apertado, até jogos a cada 48 horas são debatidos (contra a vontade dos jogadores), mas parece inevitável um achatamento do Brasileiro ou uma remodelação entrando em 2021. Se houver um menor número de jogos, as cotas televisivas sofrerão uma diminuição substancial, já que são pagas por número de jogos.

Problema maior ainda terão clubes menores e de interior que vivem de parcerias com governos, especialmente municipais. Com o avanço do Covid, é possível que essas parcerias sejam terminadas indefinitivamente e à exemplo de Santo André, onde o Bruno José Daniel virou hospital de campanha, os estádios atendam as necessidades de saúde da população.

Para os clubes que vivem do Sócio Torcedor e venda de materiais, o problema será a condição do torcedor em manter sua fidelidade ao clube. Entrando no 2º mês de quarentena, a população começa a sentir cada vez mais os efeitos da grande crise econômica que virá pela frente e o futebol deixará de ser prioridade. O Fortaleza anunciou uma Rede de Proteção em quem pagar esse mês, ganhará mais 2 de graça no Sócio.
CONTRATOS E CONTRATAÇÕES O fato é que a redução de salários é uma necessidade e não irá parar por aí, os clubes devem reduzir os valores ainda mais em breve e para os jogadores não haverá opção, ou será isso ou não receber absolutamente nada. Alguns clubes falam em contratação e à exemplo do Cruzeiro, até aproveitaram esse período para fechar com jogadores, como a Raposa fez com Régis.

Os clubes no momento não tem a menor expectativa de normalização das contas e se não repensarem os contratos rapidamente, terão problemas futuros. Com o avanço da doença, as dívidas, a ideia é que só consigamos um senso de normalidade financeira no futebol por volta 2022/2023, afinal a ideia é entrar e sair de quarentenas até a descoberta e distribuição em massa da vacina, o que ainda deve levar ao menos 1 ano. Com a queda de receita no futebol da Europa e da Ásia, grandes vendas não devem acontecer nessa janela ou até nas próximas duas ou três.

Qualquer clube responsável nesse momento deve estar revendo contratos com seus profissionais, bolando alternativas para se ter dinheiro, evitando gastos extras e já planejando pela grande chance de algo similar acontecer em 2021.

FUTEBOL PÓS-QUARENTENA Ontem, o Executivo de Futebol do Sampaio Corrêa, Juliano Camargo, falou em um seminário chamado "Footalk", sobre as dificuldades da malha áerea brasileira em condições normais e que não fazia ideia de como será após o fim da pandemia com aviões parados por todo país e a crise gigantesca que enfrentarão por conta da falta de voos agora e depois, pela população precisar de alguns (bons) meses para se reerguer minimamente na economia.

Além disso, com problemas na economia significa que se os ingressos e sócios permanecerem no mesmo valor, teremos menos pessoas no estádio e menor renda, além de que tentando organizar as contas, patrocínios não pagarão tanto e serão ainda mais escassos do que já são (acredite, são bem difíceis de se encontrar por um valor justo).
CONSIDERAÇÕES FINAIS O fato é que teremos mudanças substanciais no futebol (e no esporte em geral) nos próximos meses. Estádios com portões fechados, uma pausa nas contratações e salários milionários, clubes com arrecadações bem menores (e outros gastando o que não tem, prometendo o que não devem e pagando na frente com juros na frente) e um marketing mais voltado ao que podemos fazer pelos clubes do que o clube pode nos ofertar, essas devem ser realidades em um futuro mais próximo. Será que irá voltar ao que conhecíamos até mês passado? Difícil dizer, porém no imediato, parece uma volta ao passado de forma forçada.

Por Luca Laprovitera  Facebook

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Como manter o interesse nos estádios?

Atacante italiano Francesco Totti comemorando um gol
tirando uma selfie
Depois de um ano sem escrever no blog por conta de compromissos profissionais junto ao Fortaleza Esporte Clube, volto agora como um hobby para me divertir enquanto tiro férias.

A ideia de hoje vem da experiência do último ano como Assessor de Comunicação do Fortaleza, trabalhando diretamente no marketing do clube participando de vários projetos e como passei a enxergar a experiência de vender uma partida de futebol. No último domingo tive uma conversa informal com o Maurílio Fernandes, produtor musical da Empire, em uma tradicional boate local. Ele compartilhou hoje na dificuldade de vender shows, onde o público raramente vai pela banda e sim pela experiência, o que me intrigou bastante em escrever.

TEMPOS LÍQUIDOS
Filósofo Zygmund Bauman, autor de mais de 50 obras
Na conversa, Maurílio falava dos telefones e como não conseguíamos consumir nada por muito tempo, que as informações eram digeridas com muita velocidade e tudo muda muito rápido. A ideia me lembrou de um autor cuja obra conheci na faculdade, o filósofo Zygmund Bauman. 

Em 2000, Bauman lançou uma das obras modernas mais interessantes, intitulada de "Modernidade Líquida". Para o filósofo, o conceito trata da fluidez das relações do mundo contemporâneo. Outros seis livros sobre a temática seriam lançados até o falecimento do autor no início desse ano. Para mim, o mais impactante foi "Tempos Líquidos", de 2006. No livro, Bauman explica que nada é para durar, as coisa mudam rapidamente e sem a menor pressão. 

O futebol talvez seja o recanto mais 'líquido' que eu conheço. Os tópicos de discussão, quem está bem e quem está mal, quem merece sair, quem deve voltar, tudo muda em um espaço de 2 horas. A partida mais comentada do dia muda do início ao fim da tarde, e assim, as atenções também.

FUTEBOL NO BRASIL
Casal corintiano olhando o celular (cima);
Torcida do Fluminense (baixo)
Para muitos, as imagens acima são opostas, se divergem. O fato é que os estádios brasileiros parecem ser pouco atraentes e as soluções parecem um pouco complicadas. Durante a Copa de 2014, seis novas Arenas foram construídas, outros seis estádios foram reformados para virarem Arenas, além da construção do Allianz Parque em São Paulo e da Arena do Grêmio, em Porto Alegre. 

Mesmo assim, poucas desses arenas conseguem dar retorno aos seus donos, além da crise que o país vive, as dificuldades de gestão e manutenção são evidentes. A maioria delas não tem um bom wi-fi, o que em um mundo moderno incomoda muita gente, afinal a experiência do estádio não deve prender-se apenas ao jogo. 

Voltando ao contexto da conversa com Maurílio, uma partida de futebol deve ser uma experiência, as duas horas gastas com a partida são insuficientes para agradar o grande público, lembrando que ela hoje só interage com os fanáticos, aqueles mesmos torcedores de sempre, os apaixonados, mudando apenas em fases decisivas, onde o público tende a aumentar. Mas por que não sempre?

Algumas semanas atrás estive em uma palestra do consultor Marcos Braun, na FIEC de Fortaleza e ele falava constantemente da experiência do 'match day'. Diferente da Europa, a maioria dos estádios não tem um bom acesso, muitos não tem ônibus ou metrô com facilidade ao local, os horários muitas vezes não colaboram, os preços para os serviços prestados normalmente são bastante altos, e muitas Arenas e Federações dificultam as ações de marketing, afastando os parceiros.

O QUE PODE MELHORAR?

Lanchonete no AT&T Stadium, do Dallas Cowboys,
equipe de futebol americano da NFL

Claro que é muito difícil comparar o conforto e poderio financeiro das grandes ligas americanas (NFL, NBA, MLB) e das grandes ligas europeias (Champions League, La Liga, Premier League) com as arenas brasileiras, mas muita coisa pode ser melhorada.

O transporte é um assunto complicado, uma grande falha no país é construir um estádio para ter um, pouco se pensa na mobilidade urbana, ao exemplo da Arena Corinthians, constante centro de reclamações da distância. Em Londres por exemplo, para se construir um estádio, deve-se pensar na mobilidade e acessos para aí sim ser liberada a construção do local. 

Uma flexibilidade nas ações e interações entre clubes e patrocinadores, permitindo maior impactação do público. A Arena Corinthians citada negativamente acima também tem seus êxitos, é uma das arenas com maior número de ações de impacto para o torcedor no país, feiras, tours, stands e apresentações de patrocinadores e parceiros sempre movimentam o estádio.

O uso da marca do clube pela cidade, como a participação em diversos ambientes como escolas, shoppings, locais públicos de grande movimentação, especialmente no 'match day', chamando o torcedor para o jogo e especialmente, recepcionando a torcida na chegada da partida.


Trazer o patrocínio para campo também é importante com ações pontuais. No vídeo acima, a Fly Emirates faz uma ação junto a torcida do Benfica antes de uma partida do Campeonato Português. Dirigentes, empresários, federações e atletas devem estar sempre conectados nas parcerias, afinal o patrocínio é uma via de mão dupla e não só uma marca estampada na camisa. 

O QUE PODE MUDAR?
Escolinha do PSG no Rio de Janeiro
Em tempos modernos, onde a vida se torna mais prática e líquida, de interações rápidas, um programa de 2 horas semanal (só contando o tempo de jogo) para pessoas que acham um vídeo de 10 minutos uma eternidade, é se distanciar das novas gerações. Os estádios perdem cada vez mais espaço para as televisões, o nosso futebol não precisa ter o glamour, a qualidade ou o dinheiro das principais ligas do mundo, mas pode ter seu próprio charme.

Trazer certas tradições de volta já seria um grande começo. Muitos estados ainda proíbem a venda de cerveja alegando incentivar a violência, algo que após a proibição se mostrou ser equivocada, já que as brigas em estádio passaram longe de diminuir. Não adiantou também proibir organizadas, faltou sim um diálogo com elas e o cumprimento da lei. Como uma vez ouvi "Se um torcedor acerta o bambu na cabeça do outro, o bambu será proibido de ir ao estádio e não o agressor", mostrando bastante uma das falhas em fazer esporte no país. 

O nosso futebol tem que se comunicar com o seu torcedor, identificar a necessidade dele em todas as escalas. Do conforto para mantê-lo durante ao tempo, para a identificação para conquistá-lo desde cedo até a boa prática para tê-lo por perto.